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Sobre os Direitos dos Animais em Ponta Grossa

6 de abril de 2019
Sobre os Direitos dos Animais em Ponta Grossa

Na maioria das cidades brasileiras, enfrenta-se o grave problema dos animais abandonados nas ruas. Ponta Grossa não é diferente: apesar de não haver um censo que comprove o número de cães e gatos em situação de abandono, é possível estimar que haja milhares de indivíduos vivendo em matilhas pelas ruas dos bairros e no Centro da cidade.
Esta situação exige uma reflexão sobre o comportamento humano. Por que há tantos animais abandonados, vivendo em condições precárias, sujeitos à violência, ao descaso, às doenças? Basicamente, porque há uma cultura anacrônica, difundida entre o senso comum, de que os animais existem para servir a espécie humana, e por isso, são tratados como objetos – sejam objetos que nos oferecem sua carne, sangue, vísceras e pele, para alimentação e vestuário; sejam objetos que existem para nos servir como cobaias para experimentos químicos, necessários para a pesquisa fármaco-medicinal ou da indústria química de perfumes e produtos de limpeza; sejam objetos de ostentação, bibelôs descartáveis, consumidos como produtos em feiras de animais.
É preciso compreender que a maior parte das matilhas de cães e grupos de gatos que vivem nas ruas não está totalmente abandonados: esses grupos tem a capacidade de se agregar, e de alguma maneira, aproximar-se de humanos que acabam, por compaixão ou necessidade, prestando uma mínima assistência, dando-lhes comida e abrigos improvisados. É o que se observa, por exemplo, nas praças em que os taxistas tomam conta dos bichos, que já viraram uma espécie de marca registrada do centro da cidade. Ou ainda, em algumas ruas nos bairros, em que vizinhos compartilham de uma “guarda comum” a animais, que acabam servindo como segurança e alarme.
Porém, infelizmente, convivemos com três problemas sérios: o descontrole populacional de animais de rua; as zoonoses de que esses bichos podem ser portadores e transmissores; a violência gratuita, fruto da ignorância de parte da população, contra esses animais.
Os três problemas tem soluções relativamente fáceis e baratas: para o descontrole populacional é preciso, em primeiro lugar, conscientização: a população deve compreender que um animal é um ser vivo, sensível, que está sujeito às mesmas necessidades de qualquer outro ser vivo. Ao adquirir um bicho de estimação deve-se levar em conta particularidades e adaptações necessárias, tanto do dono quanto do animal, para a convivência pacífica e equilibrada: um cão ou um gato podem viver até 15 anos, e nesse período, eventualmente serão necessários cuidados médicos, além de carinho, conforto, roupas, comida, vacinas, passeios, higiene. Um cão ou um gato não são equivalentes a um eletrodoméstico: é preciso interagir com eles, e tratá-los como membros da comunidade familiar. Um cachorro grande nunca é adequado para um apartamento, e a ideia de que um gato possa ficar confinado é, além de incoerente, um sinal de ignorância. Fundamentalmente, quando adquire-se um animal, deve-se ter consciência de que a posse responsável inclui o compromisso de permanecer com ele até o fim de sua vida, prestando-lhe toda a assistência necessária. Para evitar a proliferação descontrolada, a castração é um procedimento indicado a partir dos 4 meses. Com isso, o dono terá um animal saudável, não vulnerável e porá fim a qualquer possibilidade de descontrole populacional ou abandono.
As zoonoses podem ser resolvidas, também, com a castração de animais de rua. Menos animais significam menos doenças e menos problemas. O poder público e a sociedade civil organizada tem o dever de promover campanhas de castração e vacinação em massa, evitando, dessa forma, a proliferação desenfreada, o descontrole populacional, as doenças que podem inclusive ser letais a seres humanos.
Finalmente, a violência contra os animais deve ser combatida através de leis duras contra os que maltratam os bichos – compreendendo que a maior violência é a do abandono e da posse irresponsável –, e também com a conscientização e educação da população a respeito dos direitos dos animais. Uma cultura que compreenda os animais não como objetos que existem para nos servir, mas como seres com quem partilhamos o planeta, e a quem devemos muito de nosso equilíbrio mental, psíquico e físico, ensinada desde os primeiros anos, é a certeza de que as novas gerações hão de melhorar a relação entre humanidade e animais.
Esses três aspectos devem estar interligados.
E o que desejamos, é manifestar nosso apoio à causa animal, bem como a necessidade de criação de leis e promoção de eventos de conscientização que visem a melhoria da qualidade de vida dos animais em situação de rua.
Entendemos que retirar os animais das ruas é uma política eugenista, que não resolve o problema e desumaniza a cidade. Vale lembrar que cidades como Roma, Nova York, Madri, Lisboa, Berlim, convivem pacificamente com seus cães e gatos de rua, e além de os tratarem com o respeito que merecem, os consideram símbolos de sua cidadania. É claro que nesses lugares a questão do abandono, do controle populacional e das zoonoses é resolvido com humanidade e não com violência e ignorância.
E é isso o que esperamos para nossa cidade: que a Princesa dos Campos se torne uma cidade amiga dos seus animais, pois isso é um preceito básico para o estabelecimento da democracia e da cidadania no século 21.

Pietro Arnaud Santos da Silva
Cidadão